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  • jorgecaixote

O feminismo é uma porcaria


O feminismo é uma porcaria

Se você tem prestado atenção ao ativismo feminista mais popular, seria desculpável se você acabasse pensando que o feminismo é um movimento para todas as pessoas, em todos os lugares. O erro que levou a essa posição até que é interessante, na verdade: vem da má compreensão da ideia de “interseccionalidade”. “Se o seu feminismo não é interseccional, é uma porcaria”, diz um slogan feminista popular. Recentemente eu me irritei tanto com um pôster com esses dizeres, no banheiro de uma Universidade, que eu rabisquei em cima dele com os dizeres “Se o seu feminismo envolve dizer para outras mulheres como fazer feminismo, é uma porcaria”. Mas eu ainda estava irritada sobre isso uma semana depois, então eu simplesmente o arranquei. #sorrynotsorry.

A ideia de interseccionalidade vem de Kimberlé Crenshaw, em um artigo de 1989. Crenshaw tem um TED Talk sobre o conceito, que termina com uma dinâmica bem sensível. Vai lá, assiste. Eu vou explicar aqui o que Crenshaw diz (e o que ela não diz) em seu artigo, para que então eu possa explicar o erro que tantas pessoas cometem ao entender a interseccionalidade e como elas a têm utilizado (erroneamente) para sair de um feminismo enquanto um movimento coerente de defesa dos direitos e dos interesses de pessoas do sexo feminino, para irem em direção a um movimento incoerente que, por alguma razão doida, é chamado “feminismo” e, ainda assim, não tem nenhuma relação especial com os direitos ou os interesses de pessoas do sexo feminino. Ou mesmo pessoas femininas. Ou qualquer coisa que possa levar esse nome.

Crenshaw começa seu artigo pontuando que as pessoas tendem a tratar raça e gênero (que ela quer dizer sexo) como categorias separadas. Existem pessoas negras, e sua opressão pode ser teorizada de certa forma; e existem mulheres, e sua opressão pode ser teorizada de uma certa forma também. Quando teorizamos sobre essas categorias, tendemos a nos focar nas pessoas que são oprimidas apenas por ela. Então quando pensamos na opressão de pessoas negras, tendemos a pensar nos termos de homens negros; e quando pensamos sobre a opressão feminina, tendemos a pensar nos termos de mulheres brancas. (Crenshaw frisa isso na dinâmica inicial de sua TED Talk, na qual ela pede para a audiência levantar e sentar quando ouvem um nome que não reconhecem. Eric Garner, Mike Brown, Tamir Rice, Freddy Gray? Sim. Michelle Cusseaux, Tanisha Anderson, Aura Rosser, Meagan Hockaday? Não. Muitas pessoas ouviram sobre os homens negros mortos pela violência policial nos EUA, mas poucas ouviram sobre as mulheres negras.)

No artigo, ela discute três casos jurídicos. Em um, um grupo de mulheres negras argumentava que as mulheres negras estavam em desvantagem na General Motors (GM), a empresa para qual elas trabalhavam. Acontece que a GM não contratava mulheres negras até 1964, e demitiu todas as que foram contratadas depois de 1970. Mas o tribunal negou que mulheres negras fossem “uma classe especial a ser protegida de discriminação”. O tribunal estava relutante em “criar novas classes de minorias protegidas […] por combinação”. Foi dito explicitamente que havia base legal para proteção contra discriminação racial, e contra discriminação sexual, mas não contra ambas juntas. Já que a GM contratava mulheres (leia-se: mulheres brancas), não havia argumento legal que sustentasse a alegação de discriminação com base em sexo, e já que a GM contratava pessoas negras (leia-se: homens negros), não havia argumento legal que sustentasse a alegação de discriminação racial.

Num outro caso, um grupo de empregadas argumentou que seu empregador, Hughes Helicopter, discriminava com base no sexo. A representante do grupo de empregadas era uma mulher negra. Mas o tribunal se recusou a reconhecê-la como tal, dizendo que ela havia alegado que era discriminada por ser uma mulher negra, não só como (apenas) uma mulher. Isso, o tribunal disse, significava que havia “sérias dúvidas sobre [sua] habilidade em representar adequadamente empregadas brancas”. Aqui, a dificuldade está no outro polo. A representante era uma mulher negra; mulheres negras são mulheres (obviamente); então a representante certamente poderia representar um grupo de mulheres. Mas sua participação em dois grupos sociais significava que ela era entendida de certa forma como um caso “híbrido”. Talvez sua discriminação fosse por causa de sua cor, não por causa de seu sexo, o tribunal pode ter especulado.

Por fim, num terceiro caso, um tribunal aceitou duas mulheres negras como representantes em um caso de discriminação racial, mas se negou a permitir que elas representassem pessoas empregadas negras de forma geral, e somente as aceitou como representantes das mulheres negras. Isso se deu com base na ideia de que era esperado que diferenças sexuais entre homens negros e mulheres negras tivessem diferenças importantes na discriminação (ou não) por parte da empresa.

É na discussão desses três casos e das formas como mulheres negras são tratadas sob leis antidiscriminação que Crenshaw faz a metáfora da intersecção. Eis em suas próprias palavras:

Faça uma analogia com o trânsito em uma intersecção, indo e vindo em todas as quatro direções. A discriminação, como o trânsito em uma intersecção, pode vir de qualquer direção. Se um acidente acontece em uma intersecção, pode ser causado por carros viajando de diversas direções, e, às vezes, de todas elas. De forma semelhante, se uma mulher Negra é prejudicada porque ela está na intersecção, sua lesão pode ser resultado tanto da discriminação sexual quanto da discriminação racial.

Essa é uma ideia bastante útil. A classe de mulheres é constituída por pouco mais da metade da população mundial. Há literalmente todos os tipos de mulheres. Algumas dessas não serão oprimidas para além de sua mulheridade (as ricas e brancas) e não terão outras desvantagens além de sua mulheridade (as heterossexuais e sem deficiências físicas e qualquer outro tipo de vantagem que você puder imaginar). Algumas dessas serão oprimidas de mais uma ou duas formas; terão desvantagens de mais uma, duas ou três (ou etc.) formas. Todas são mulheres, mas aquelas que são oprimidas de alguma outra forma ou têm algum outro tipo de desvantagem para além de sua mulheridade são como pedestres em pé em uma rua de mão única. Se forem atingidas, nós sabemos de onde o carro vinha. Aquelas que são oprimidas ou têm desvantagens de várias formas estão em intersecções que são o eixo para diversas outras ruas mais. Se forem atingidas, pode ser por qualquer direção, de uma só vez ou de cada direção separadamente.

O que essa metáfora de fato nos diz é que mulheres possuem vários tipos de identidades que se interseccionam e nós precisamos levá-las mais a sério, não só ao pensarmos em leis antidiscriminação mais ampliadas, mas também ao pensarmos sobre o feminismo e sobre como podemos proteger os interesses de mulheres de forma mais geral. O que essa metáfora não nos diz é que pessoas (leia-se: as que não são mulheres, também) têm todo tipo de identidades que se interseccionam, e precisamos levá-las a sério.

Como é que as pessoas partem do argumento de Crenshaw de que a interseccionalidade importa e acabam no argumento de que o feminismo é pra todo mundo, então?

É mais ou menos assim: o feminismo é um movimento em defesa dos direitos e dos interesses das mulheres. Mulheres negras são oprimidas tanto por serem mulheres quanto por serem negras. Se vamos proteger os direitos e os interesses de mulheres, então precisamos lutar contra a opressão de pessoas negras. Afinal, se só lutarmos contra a opressão sofrida por mulheres, as mulheres negras só vão se beneficiar um pouquinho — elas ainda sofrerão toda a opressão relacionada à negritude. (Eu estou presumindo, para fins didáticos, que podemos “separar” opressões, algo em que eu até acredito, mas eu precisaria desenvolver de forma mais extensa esse argumento e precisaria de mais pesquisa empírica. Crenshaw é ambígua quanto a isso, porque a metáfora das intersecções sugere separação, mas ela diz em dado momento que as lutas contra o racismo e contra o sexismo podem ser indistinguíveis.) Mas uma parte circunstancial da luta contra a opressão de pessoas negras é lutar contra a opressão de homens negros. Então, de repente, homens fazem parte dos objetivos do movimento feminista.

Agora refaça essa história de novo, e de novo, e de novo, para mulheres pobres, lésbicas, mulheres com deficiências físicas, neuroatípicas, homens trans, pessoas “não-binárias” do sexo feminino, e assim por diante. De repente, para ajudar mulheres, precisamos ajudar todo mundo. Se vamos ajudar as lésbicas, então precisamos apoiar os direitos LGB (o que inclui homens gays e bissexuais); se vamos ajudar mulheres pobres, então precisamos apoiar propostas de subsídios sociais, de salário mínimo, ou de expansão da faixa de renda isenta de pagar imposto de renda (o que vai ajudar homens pobres); e assim por diante. O feminismo deixou de ser um movimento em prol de pessoas do sexo feminino, e passou a ser um movimento para todo mundo, do mundo todo, com a justificativa vaga de que não podemos ajudar pessoas do sexo feminino sem, acidentalmente, ajudar um monte de gente do sexo masculino no caminho.

Onde a história fica perniciosa, é claro, é quando isso vira uma dinâmica de olimpíadas de opressão, que é um nome pouco gentil para a tendência atual de minorias sociais tentarem desesperadamente provar que eles são os mais sofridos do mundo — algo que transativistas parecem fazer com gosto. Isso tem duas implicações. Em primeiro lugar, algumas pessoas tomam a decisão política de endossar a doutrina de “mulheres trans são mulheres” (outras pessoas talvez não exatamente endossem isso, mas preferem evitar a fogueira pública de serem dissidentes conhecidas [“TERF!”, eles gritam. “Transfóbica! Preconceituosa!”]. Se você acredita que mulheres trans são mulheres, então, é claro, ser trans é mais uma fonte de desvantagem para mulheres, o que pode transformar sua “rua” em uma intersecção (mas note que parece haver uma trapaça no sistema aqui: antes que a mulher trans fosse trans, ele era um homem, então se fosse no mínimo rico, branco e heterossexual, ele sequer estaria “na rua”. Ele estaria num tipo de paraíso de nuvens fofas, sem nunca ser atingido [pelo menos, não por carros]. Plausivelmente, ser trans apenas o tira do paraíso e o coloca na rua; é esquisito pensar que ele, do nada, está numa intersecção, porque o fato de ser trans também o faz mulher, e é mais esquisito ainda pensar que isso faz dele uma lésbica. Sim, algumas pessoas realmente afirmam que homens podem ser lésbicas.)

Se aceitamos que mulheres trans são mulheres, então um grupo de homens — anteriormente compreendidos como opressores de pessoas do sexo feminino — podem muito bem acabar tendo prioridade no movimento feminista. Pense numa mulher trans negra. Ele pode alegar sofrer opressão por causa de seu sexo e de sua raça. (Isso é um pouco complicado, porque ele não é realmente oprimido por conta de seu sexo, que é masculino; mas se ele tiver passabilidade como mulher ele será oprimido em virtude de seu sexo aparente, e, em todo caso, muitas mulheres trans insistem que elas são mulheres e portanto alegarão que vivenciam essa opressão, mesmo que não vivenciem. Se você não acredita em mim, pesquise por “transmisoginia”, que é a ideia incoerente de que alguém pode ser simultaneamente alvo de ambas misoginia e transfobia. Bomba, bomba! Se você é entendida como mulher trans então provavelmente você não está sujeito a misoginia, e se você está sujeita à misoginia então provavelmente não está sujeita a transfobia. Não dá pra ter tudo, gente.) E ele pode alegar sofrer desvantagem em virtude de ser trans. Parte do grupo compreendido como opressor de pessoas do sexo feminino, de algum jeito, agora virou o grupo mais sofrido da classe de mulheres, e recipientes não só dos benefícios acidentais do ativismo feminista, mas também de serem colocados no centro do movimento feminista.

Mas há outra implicação igualmente preocupante, mesmo que rejeitemos a alegação de que mulheres trans são mulheres, dado o deslize de identidades de mulheres que se interseccionam para identidades de pessoas que se sobrepõem. Se pessoas trans de fato são o grupo social mais fodido, como alegam ser, elas ainda terão bons argumentos para serem o foco das campanhas e do apoio feminista, sob a ótica de que ser trans é algo que prejudica seriamente algumas mulheres (homens trans). Isso terá benefícios acidentais para o setor bem mais vocal e visível da comunidade trans, nomeadamente mulheres trans. (Há perguntas separadas e interessantes para se fazer sobre esse pressuposto de que sempre devemos dar prioridade para os mais fodidos, que é uma doutrina filosófica conhecida como “prioritarianismo”, mas isso é conversa pra outra oportunidade.)

Para finalizar, há uma pergunta filosófica bem interessante a se fazer sobre o feminismo enquanto movimento. Talvez ele realmente devesse ser sobre ajudar mulheres, e isso significa ajudar mulheres mesmo em aspectos de suas vidas que não têm nada a ver com seu sexo. Mas note que não estamos forçadas a esse posicionamento. Outra forma de pensar sobre o feminismo é como um movimento que se preocupa em ajudar mulheres no que tange a seus interesses e direitos de base sexual. Isso nos aproxima das questões “essenciais” mais familiares à história do feminismo, como a emancipação feminina, e educação feminina, e direito a aborto, e direitos reprodutivos, e iguais oportunidades para emprego e remuneração, e uma vida livre de violência doméstica e de violência sexual e de assédio na rua e todas as outras coisas que as mulheres sofrem quando vivem sob o patriarcado, como sofremos. Nós podemos fazer tudo isso ao mesmo tempo em que prestamos atenção aos aspectos de base sexual de identidades que se interseccionam (ao mesmo tempo em que desconsideramos os aspectos que não se relacionam com o sexo).

Sou a favor de pensar o feminismo dessa última forma, porque daí o feminismo não é de repente também sobre acabar com o capitalismo e lutar contra as mudanças climáticas. Essas lutas podem ter, e têm, aspectos relativos ao sexo, e, onde têm, o feminismo deve se preocupar com elas. Mas onde não têm, nós deveríamos estar ok com uma divisão do trabalho. Deixe que anarquistas lutem contra o capitalismo, deixe que ambientalistas lutem contra as mudanças climáticas, e façamos parte de uma grande aliança se e onde tivermos a energia e os recursos (algumas questões se mesclam com mais facilidade e naturalidade, também).

Então: “se o feminismo não for interseccional, é uma porcaria”. Isso é verdade? Bem, se isso significar “se o seu feminismo só servir para pessoas que são oprimidas ou que estão em desvantagem exclusivamente por causa de sua mulheridade, é uma porcaria”, então é verdade sim. Feminismo não é só para mulheres brancas heterossexuais de classe alta sem deficiências blá-blá-blá. Mas se isso significar, “se seu feminismo não é para homens, é uma porcaria”, ou “se o seu feminismo não estiver também lutando contra o capitalismo, é uma porcaria”, ou, ainda, como um tweet recente notório feito pela porra das Nações Unidas, “se a sua definição de feminista não for ‘uma pessoa que acredita e assume um posicionamento pela igualdade social, econômica e política de todos os seres humanos’, é uma porcaria” (pegou? não mulheres — todos os seres humanos), então, não, não é verdade porcaria nenhuma.

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